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Liraglutida (Saxenda/Victoza)Victoza

Victoza: para que serve essa caneta de liraglutida para diabetes

Por Equipe CanetaCerta
Atualizado em 29 de julho de 2026 · 10 min de leitura

Victoza

Ficha de dados

Preços de referência de julho de 2026

MarcaMoléculaAplicaçãoReceitaPreço por mês
VictozaNovo NordiskLiraglutidaInjeção diáriaRetida, controle especialR$ 635 a R$ 705caixa com 2 canetas, em fim de linha

Seu médico trocou a receita e você veio para o Google entender por quê — a caixa que estava no mesmo lugar da farmácia há três anos parou de aparecer. Ou talvez tenha sido o contrário: você leu uma lista de canetas emagrecedoras, viu o nome Victoza no meio, reparou que é da mesma fabricante do Ozempic e do Saxenda, e quer saber se ela serve para o que você está pensando antes de mencionar isso na consulta.

As duas portas dão na mesma sala, e a resposta curta contraria as duas expectativas. A Victoza nunca foi uma caneta de emagrecimento — foi aprovada pela Anvisa em março de 2010 para controle glicêmico no diabetes tipo 2, e só para isso. E em 2026 ela está saindo de circulação em boa parte do mundo, por decisão do próprio fabricante.

Este artigo explica o que a molécula faz, o que a bula autoriza, o que os estudos mediram de perda de peso e por que uma caneta que funciona está sendo aposentada.

O que a Victoza é, por dentro

O princípio ativo é a liraglutida, um análogo de GLP-1 (glucagon-like peptide-1). O GLP-1 é um hormônio que o próprio intestino libera depois que você come, e ele faz três coisas ao mesmo tempo: manda o pâncreas soltar insulina, segura a liberação de glucagon (o hormônio que faz o fígado jogar açúcar no sangue) e desacelera a saída da comida do estômago.

O detalhe que importa para quem tem diabetes está no primeiro item. A insulina que o GLP-1 estimula é dependente da glicose — o estímulo só acontece quando o açúcar no sangue está alto. É por isso que a liraglutida sozinha carrega risco baixo de hipoglicemia; o risco sobe quando ela é combinada com sulfonilureia ou insulina, e aí a dose desses outros medicamentos costuma precisar de ajuste.

A caneta traz solução de 6 mg/mL, com 3 mL e 18 mg de liraglutida no total. A aplicação é uma vez por dia, em qualquer horário, com ou sem refeição, desde que seja sempre no mesmo horário. A dose não começa na dose de manutenção: são 0,6 mg por pelo menos uma semana, depois 1,2 mg, e 1,8 mg como máximo — o escalonamento existe para o intestino se acostumar, e pular etapa é o caminho mais rápido para náusea e diarreia intensas.

O motivo da aplicação diária é farmacológico, não comercial: a liraglutida tem duração de ação em torno de 24 horas. A semaglutida do Ozempic, que veio depois, tem meia-vida de cerca de uma semana. Foi essa diferença — 365 aplicações por ano contra 52 — que empurrou o mercado para a geração seguinte.

A indicação oficial, palavra por palavra

Vale ler o texto aprovado, porque ele é mais estreito do que a conversa de internet sugere. A indicação registrada é como adjuvante da dieta e da atividade física para atingir o controle glicêmico em pacientes adultos com diabetes mellitus tipo 2, em monoterapia ou combinada com um ou mais antidiabéticos orais (metformina, sulfonilureias ou tiazolidinediona), quando o esquema anterior não deu controle adequado.

Duas palavras dessa frase costumam passar batido. Adjuvante significa que a caneta entra por cima de dieta e exercício, não no lugar deles. E quando o tratamento anterior não proporciona controle adequado significa que a Victoza raramente é a primeira escolha — ela entra depois que a metformina, sozinha ou acompanhada, não segurou a glicemia.

Sobre emagrecimento, a Anvisa foi explícita e cedo. Em 2011, um ano depois do registro, a agência publicou esclarecimento afirmando que não reconhece nenhuma indicação do Victoza diferente da aprovada, e que usar o produto para redução de peso ou obesidade caracteriza alto risco sanitário. O argumento da época era técnico: nenhum estudo de eficácia e segurança para redução de peso tinha sido submetido à agência, e o fabricante sequer havia pedido extensão da indicação.

Victoza e Saxenda: mesma molécula, canetas diferentes

Aqui está a confusão mais comum do nicho. A Saxenda é liraglutida. A Victoza é liraglutida. Mesma empresa, mesma concentração de 6 mg/mL, mesmo formato de caneta. O que muda é a dose máxima e o registro.

Victoza Saxenda
Molécula Liraglutida Liraglutida
Fabricante Novo Nordisk Novo Nordisk
Concentração 6 mg/mL 6 mg/mL
Dose máxima 1,8 mg/dia 3,0 mg/dia
Indicação registrada Diabetes tipo 2 Obesidade e sobrepeso com comorbidade
Aplicação Diária Diária

Duas doses da mesma molécula viraram dois produtos porque, no Brasil e no resto do mundo, indicação não se herda: para registrar liraglutida contra obesidade, a Novo Nordisk teve que rodar um programa de estudos separado, o SCALE, com a dose de 3,0 mg. A Victoza continuou sendo o produto de diabetes.

Quanto de peso a Victoza faz perder, segundo quem mediu

Existe um número, e ele vem do estudo que colocou as duas doses lado a lado. O SCALE Diabetes, publicado no JAMA em 2015, randomizou 846 adultos com sobrepeso ou obesidade e diabetes tipo 2 em três grupos, por 56 semanas:

  • liraglutida 3,0 mg (a dose da Saxenda): 6,0% do peso corporal, ou 6,4 kg em média
  • liraglutida 1,8 mg (a dose máxima da Victoza): 4,7% do peso corporal, ou 5,0 kg em média
  • placebo: 2,0%, ou 2,2 kg

Três leituras saem daí. A primeira: a perda de peso com a dose de Victoza é real e maior que a do placebo. A segunda: ela é modesta perto do que se fala hoje na categoria — o estudo SURMOUNT-5 mediu 20,2% com tirzepatida em 72 semanas, mais de quatro vezes esse número. A terceira, e a mais importante: a diferença entre 4,7% e 6,0% é o que separa uma indicação da outra. Não foi um detalhe burocrático; foi o resultado que justificou registrar a dose maior para obesidade e deixar a menor onde estava.

O que a Victoza provou primeiro, e ninguém lembra

Antes de virar coadjuvante, a liraglutida entregou uma coisa que a maioria dos antidiabéticos da época não tinha: benefício cardiovascular medido em estudo grande e longo.

O LEADER, publicado no New England Journal of Medicine em 2016, acompanhou 9.340 pacientes com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular por uma mediana de 3,8 anos, comparando liraglutida 1,8 mg (ou a dose máxima tolerada) com placebo. O desfecho principal — morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal — caiu 13% no grupo da liraglutida. Houve também redução de morte por qualquer causa e de desfechos microvasculares.

Esse resultado mudou a conversa clínica sobre a classe inteira. Ele é a razão pela qual um análogo de GLP-1 deixou de ser visto apenas como um jeito de baixar a hemoglobina glicada e passou a ser considerado por quem já tem doença cardiovascular estabelecida. A Victoza foi a caneta que carregou essa evidência primeiro — e é irônico que ela esteja sendo retirada justamente agora, quando a classe que ajudou a validar nunca esteve tão em alta.

Por que ela está saindo do mercado

A linha do tempo é pública e vale registrar com data, porque a maior parte do que se lê sobre Victoza foi escrita antes dela.

  • Agosto de 2023 — as canetas de Victoza entram em falta no Reino Unido, no meio da escassez global de agonistas de GLP-1.
  • Outubro de 2024 — a Novo Nordisk confirma ao The Pharmaceutical Journal que descontinuou as canetas de 6 mg/mL no Reino Unido, “como parte dos nossos esforços mais amplos de consolidar o portfólio”.
  • Setembro de 2025 — a EMA, agência europeia, comunica que a Novo Nordisk encerra a comercialização do Victoza em toda a União Europeia e no Espaço Econômico Europeu até o fim de 2026, com orientação explícita de que nenhum paciente novo deve iniciar o uso. Na Itália, a data marcada é 30 de junho de 2026.
  • 2025 e 2026 — o mesmo movimento se repete em outros mercados. Na Coreia do Sul, a empresa formalizou a descontinuação junto à autoridade sanitária local, depois que o Ozempic entrou na lista de reembolso do país.

O motivo declarado é sempre o mesmo, e a empresa faz questão de repeti-lo: não é problema de qualidade, segurança ou eficácia. É portfólio. Manter uma linha de produção de aplicação diária, com margem menor e demanda em queda, enquanto a mesma empresa não dá conta da demanda por semaglutida, é uma decisão de fábrica, não de bula.

No Brasil, a Novo Nordisk comunicou à Anvisa o encerramento da comercialização, com previsão para o último trimestre de 2025 — e orientou que os pacientes procurem o médico para a transição. Na prática, estoque tem inércia: em 30 de julho de 2026, o Victoza ainda aparecia disponível em farmácias brasileiras.

Quanto custa hoje e o que entrou no lugar

Como referência de 30 de julho de 2026, a caixa de Victoza com dois sistemas de aplicação estava entre R$ 634,86 e R$ 705,40 em levantamento de farmácias online. Em fevereiro de 2026, o mesmo levantamento mostrava a faixa de R$ 581,69 a R$ 770,00, feito em um número maior de farmácias — o preço não disparou, mas a base de lojas que ainda listam o produto encolheu, o que é o comportamento esperado de um item em fim de linha.

A substituição nacional já existe e chegou antes do fim: em 4 de agosto de 2025, a EMS colocou nas farmácias duas canetas de liraglutida próprias — a Lirux, similar ao Victoza, para diabetes tipo 2, e a Olire, similar ao Saxenda, para obesidade. Os preços sugeridos no lançamento foram de R$ 507,07 para a embalagem de Lirux com duas canetas e R$ 307,26 para uma caneta de Olire. É a primeira liraglutida nacional da categoria, e ela nasceu no momento exato em que a referência importada começou a se despedir.

Se você está lendo isto depois de 2026, trate todos esses números como histórico e peça o valor atual ao seu médico ou farmacêutico. Neste mercado, preço sem data é informação incompleta.

Quem não deve usar, e o que costuma acontecer

A contraindicação mais dura da liraglutida é de tireoide. A bula veda o uso em quem tem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 — a restrição vem de estudos em roedores que mostraram tumores de células C, e por precaução ela permanece mesmo sem confirmação do mesmo efeito em humanos.

Os efeitos colaterais mais frequentes são digestivos e têm hora para aparecer. Náusea, vômito, diarreia e constipação são comuns e concentram-se nas primeiras semanas e em cada subida de dose — é exatamente por isso que o escalonamento existe. Costumam ceder com o tempo; quando não cedem, a conversa é sobre reduzir a dose, não sobre aguentar.

Pancreatite é o risco raro que exige reação imediata. Dor abdominal intensa e persistente, com ou sem vômito, é motivo para interromper a aplicação e procurar atendimento, não para esperar passar. A Anvisa já listou pancreatite, desidratação e alteração de função renal entre os eventos adversos associados à classe.

E há a barreira formal: desde 23 de junho de 2025, por força da RDC nº 973/2025 e da IN nº 360/2025, todos os agonistas de GLP-1 no Brasil — Victoza incluída — só podem ser vendidos com retenção de receita. A prescrição sai em duas vias, a farmácia fica com uma, e a validade é de 90 dias.

Resumindo

A Victoza é liraglutida em dose de até 1,8 mg por dia, aprovada no Brasil em março de 2010 como adjuvante para controle glicêmico no diabetes tipo 2 — não para emagrecer, coisa que a Anvisa deixou registrada já em 2011. Ela faz perder peso, e o número é conhecido: 4,7% em 56 semanas no SCALE Diabetes, contra 6,0% da mesma molécula na dose de Saxenda. Foi ela também que carregou o primeiro grande resultado cardiovascular da classe, no LEADER, com 9.340 pacientes e queda de 13% no desfecho composto. E é ela que está saindo: a Novo Nordisk encerra a comercialização por consolidação de portfólio, a Europa se despede até o fim de 2026, e no Brasil a Lirux da EMS já ocupa a prateleira desde agosto de 2025. Se a sua receita ainda diz Victoza, a pergunta a levar para o consultório não é se ela funciona — é para onde migrar antes que o estoque acabe.

Perguntas frequentes

Victoza serve para emagrecer?

Não é para isso que ela foi aprovada. A indicação registrada na Anvisa desde 2010 é controle glicêmico no diabetes tipo 2, e em 2011 a própria agência publicou esclarecimento dizendo que não reconhece nenhum uso do Victoza fora dessa indicação e que empregá-lo para redução de peso representa alto risco sanitário. A perda de peso existe e foi medida — 4,7% do peso corporal em 56 semanas no estudo SCALE Diabetes —, só que ela apareceu como efeito observado, não como o motivo do registro. A caneta de liraglutida desenhada para obesidade é outra, a Saxenda, em dose mais alta.

Qual a diferença entre Victoza e Saxenda?

É a mesma molécula, liraglutida, do mesmo fabricante, na mesma concentração de 6 mg/mL. O que muda é a dose máxima e a indicação: a Victoza vai até 1,8 mg por dia e foi registrada para diabetes tipo 2; a Saxenda vai até 3,0 mg por dia e foi registrada para obesidade, depois de um programa de estudos próprio. No mesmo estudo que comparou as duas doses lado a lado, a de 3,0 mg levou a 6,0% de perda de peso em 56 semanas contra 4,7% da de 1,8 mg. Não são intercambiáveis: a dose e a indicação de cada uma são decisão do médico que prescreve.

Victoza foi descontinuada? Ainda dá para comprar?

A Novo Nordisk decidiu encerrar a comercialização do Victoza globalmente, como parte de uma consolidação de portfólio — e não por problema de qualidade, segurança ou eficácia, segundo a própria empresa. No Reino Unido a descontinuação foi confirmada em outubro de 2024; na União Europeia, a EMA comunicou em setembro de 2025 que a retirada se completa até o fim de 2026, orientando que nenhum paciente novo comece o tratamento. No Brasil, o produto ainda aparecia à venda em farmácias em 30 de julho de 2026, na faixa de R$ 634 a R$ 705. Se você usa Victoza, essa é uma conversa para ter com seu médico antes de o estoque acabar, não depois.

Victoza precisa de receita?

Sim, e desde 23 de junho de 2025 a receita fica retida na farmácia. A Anvisa aprovou em abril de 2025 a RDC nº 973/2025 e a IN nº 360/2025, que passaram a exigir prescrição em duas vias e retenção da segunda via para todos os agonistas de GLP-1 — semaglutida, liraglutida, dulaglutida, exenatida, tirzepatida e lixisenatida. A receita vale 90 dias. Victoza está nominalmente na lista, junto de Ozempic, Wegovy, Saxenda, Rybelsus e Xultophy.

Qual a diferença entre Victoza e Ozempic?

São moléculas diferentes da mesma família. A Victoza é liraglutida, com duração de ação de cerca de 24 horas, o que obriga a uma aplicação por dia. O Ozempic é semaglutida, cuja meia-vida longa permite uma aplicação por semana. As duas são da Novo Nordisk e as duas foram registradas para diabetes tipo 2, mas a semaglutida é a geração seguinte — foi para ela, e para a tirzepatida do Mounjaro, que o mercado migrou. A diferença de 52 aplicações por ano contra 365 é boa parte do motivo.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação, prescrição ou acompanhamento médico. Medicamentos com receita só devem ser usados sob orientação de um profissional de saúde habilitado.