Contrave: para que serve o remédio de bupropiona e naltrexona

Ficha de dados
Preços de referência de julho de 2026
| Marca | Molécula | Aplicação | Receita | Preço por mês |
|---|---|---|---|---|
| ContraveMerck | Naltrexona + bupropiona | Até 4 comprimidos por dia | Retida, controle especial | R$ 626 a R$ 699caixa de 120 comprimidos, cerca de um mês |
Você digitou “remédio para emagrecer” no buscador, e entre Ozempic, Mounjaro e Saxenda apareceu um nome que não era caneta nenhuma: Contrave. Ou talvez tenha sido no consultório — o médico ouviu que você não quer injeção, ou olhou o preço da caneta e sugeriu um comprimido em vez dela.
De um jeito ou de outro, a pergunta é a mesma: o que exatamente esse remédio faz, e por que ele aparece na mesma lista de coisas que funcionam de maneira tão diferente?
A primeira coisa a esclarecer é a que mais confunde. O Contrave não é caneta emagrecedora e não pertence à família GLP-1. Ele está na mesma prateleira de “medicamento para obesidade” no Brasil, mas a molécula, a via de administração, o mecanismo no cérebro e o tamanho do efeito medido são outros. Colocá-lo na mesma frase que as canetas sem marcar essa distinção é o erro mais comum dos textos sobre o assunto — e é o que faz gente chegar à farmácia esperando uma coisa e comprando outra.
O que é o Contrave, na prática
O Contrave é um comprimido de liberação prolongada que combina duas substâncias já conhecidas da medicina há décadas, cada uma originalmente aprovada para outra coisa:
- Bupropiona (90 mg por comprimido) — um antidepressivo que inibe a recaptação de noradrenalina e dopamina. É a mesma molécula usada há anos no tratamento da depressão e no auxílio para parar de fumar.
- Naltrexona (8 mg por comprimido) — um antagonista de receptores opioides, criado para tratar dependência de álcool e de opioides. Ela bloqueia receptores, não os ativa.
Nenhuma das duas emagrece bem sozinha. A ideia do Contrave é que, juntas e em liberação prolongada, elas produzem no cérebro um efeito que nenhuma produz isolada.
| Contrave | Canetas GLP-1 (Ozempic, Wegovy, Mounjaro, Saxenda) | |
|---|---|---|
| Forma | Comprimido oral | Injeção subcutânea |
| Frequência | Até 4 comprimidos por dia | Semanal ou diária, conforme a marca |
| Classe | Bupropiona + naltrexona | Análogos de GLP-1 (Mounjaro também age no GIP) |
| Onde age | Circuitos cerebrais de apetite e recompensa | Receptor de hormônio intestinal, com efeito no cérebro e no estômago |
| Fabricante no Brasil | Merck | Novo Nordisk, Eli Lilly, EMS |
Para que serve, segundo o registro na Anvisa
A indicação aprovada é objetiva e tem critério numérico: o Contrave é registrado no Brasil para o controle de peso em adultos com IMC igual ou maior que 30 (obesidade), ou com IMC igual ou maior que 27 (sobrepeso) acompanhado de pelo menos uma condição relacionada ao peso — diabetes tipo 2, hipertensão ou colesterol alto, por exemplo.
Em ambos os casos, a bula é explícita quanto ao contexto: o remédio é indicado como adjuvante de dieta hipocalórica e atividade física, não como substituto de nenhuma das duas. Não é uma ressalva decorativa — nos estudos que sustentam a indicação, os dois grupos, o do remédio e o do placebo, faziam mudança de estilo de vida. O que se mediu foi a diferença que o comprimido acrescentou por cima disso.
A Anvisa aprovou o registro em dezembro de 2021, mas o produto só chegou às farmácias brasileiras em 18 de maio de 2023, lançado pela Merck. O atraso de quase um ano e meio foi da aprovação de preço pela CMED, a câmara que regula o mercado de medicamentos — não de nenhuma questão de segurança.
Como ele age no cérebro: dois freios em vez de um
Aqui está a parte que explica por que a combinação existe, e ela é mais elegante do que a maioria dos textos deixa ver.
No hipotálamo existe uma região chamada núcleo arqueado, onde ficam os neurônios POMC — as células que, quando disparam, produzem sinal de saciedade. A bupropiona estimula esses neurônios a disparar. Ao disparar, eles liberam duas coisas ao mesmo tempo: o α-MSH, que propaga o sinal de “chega de comer”, e a beta-endorfina, que faz o caminho inverso — ela se liga de volta aos próprios neurônios POMC e os desliga. É um freio de segurança fisiológico: o corpo evita que o sinal de saciedade fique ligado indefinidamente.
É exatamente esse freio que a naltrexona bloqueia. Como ela é antagonista de receptor opioide, impede a beta-endorfina de fazer a retroalimentação negativa. O resultado é que o estímulo da bupropiona se sustenta por mais tempo, em vez de se autodesligar.
Há um segundo circuito envolvido, e ele é o que a maioria das pessoas descreve sem saber o nome. As duas substâncias também atuam no sistema mesolímbico de recompensa — a via dopaminérgica que responde ao prazer, inclusive ao prazer da comida. É essa parte que costuma aparecer no relato de quem usa como “a comida deixou de ocupar tanto espaço na minha cabeça”. O alvo aqui não é a fome física do estômago vazio, é o desejo.
Essa é a diferença de fundo em relação às canetas. O GLP-1 imita um hormônio que o intestino libera depois da refeição e desacelera o esvaziamento do estômago — ele mexe no eixo intestino-cérebro. O Contrave não passa pelo intestino: ele age direto nos circuitos centrais de apetite e recompensa. Duas rotas distintas para o mesmo destino, com potências distintas.
Quanto peso ele faz perder, segundo os estudos
Dois ensaios clínicos de fase 3 sustentam a indicação, ambos com 56 semanas de duração.
O COR-I, publicado na Lancet em 2010, acompanhou 1.742 adultos com IMC entre 30 e 45, ou entre 27 e 45 com dislipidemia ou hipertensão. Na dose completa (naltrexona 32 mg + bupropiona 360 mg por dia), a perda média foi de 6,1% do peso corporal, contra 1,3% no grupo placebo — uma diferença de 4,8 pontos percentuais atribuível ao remédio.
O COR-II, publicado na revista Obesity em 2013, encontrou números praticamente iguais: 6,4% de perda média contra 1,2% do placebo. Esse estudo trouxe também o dado que costuma ser mais útil na conversa com o médico, porque descreve pessoas e não médias: 50,5% dos participantes que usaram o remédio perderam pelo menos 5% do peso, contra 17,1% no grupo placebo.
Repare no que esses números dizem e no que não dizem. Metade das pessoas atingiu o limiar de 5% — o patamar que a literatura considera clinicamente relevante para melhorar pressão, glicemia e perfil lipídico. A outra metade não atingiu. Perda de 6% em 56 semanas significa cerca de 6 kg para quem pesa 100 kg, ao longo de mais de um ano de uso contínuo.
Contrave ou caneta: a comparação que todo mundo faz
A resposta honesta começa por uma limitação: não existe ensaio clínico que tenha comparado bupropiona/naltrexona com semaglutida diretamente, na mesma população, ao mesmo tempo e com o mesmo desenho. Qualquer comparação hoje é feita colocando estudos diferentes lado a lado, o que sempre carrega imprecisão — populações distintas, épocas distintas, critérios distintos.
Feita a ressalva, a diferença de magnitude é grande demais para ser ruído. As perdas médias registradas nos estudos de semaglutida ficam entre duas e três vezes as registradas nos estudos de bupropiona/naltrexona no mesmo horizonte de tempo. Nas canetas de tirzepatida a distância é ainda maior.
Isso não transforma o Contrave em opção descartável, e vale entender por quê. Ele é oral — resolve o problema de quem não vai aplicar injeção, e não é um número pequeno de gente. Custa menos que a maioria das canetas. E age por um mecanismo completamente diferente, o que importa para quem teve intolerância digestiva à classe GLP-1 ou tem contraindicação a ela. Existe ainda o caso de quem já tem indicação de bupropiona por outro motivo — cessação de tabagismo, por exemplo — e no qual a sobreposição faz sentido clínico.
O que não faz sentido é escolher pelo preço da caixa sem olhar o resto. São remédios que fazem coisas diferentes, em intensidades diferentes, com listas de contraindicação diferentes.
Como se toma: a titulação de quatro semanas
O Contrave não começa na dose cheia, e o motivo é reduzir náusea e o risco de efeitos no sistema nervoso. O escalonamento previsto na bula leva quatro semanas:
- Semana 1 — 1 comprimido pela manhã
- Semana 2 — 1 comprimido de manhã e 1 à noite
- Semana 3 — 2 comprimidos de manhã e 1 à noite
- Semana 4 em diante — 2 comprimidos de manhã e 2 à noite
A dose de manutenção, portanto, são 4 comprimidos por dia, o equivalente a 32 mg de naltrexona e 360 mg de bupropiona — exatamente a dose testada nos estudos. A bula alerta para não ultrapassar isso: como os comprimidos são de liberação prolongada, eles não podem ser partidos, mastigados nem triturados — quebrar a matriz libera a dose de uma vez, o que eleva o risco de convulsão.
O que ninguém conta quando fala só do “comprimido em vez da injeção”
A bupropiona reduz o limiar convulsivo, e essa é a advertência central da bula. Não é efeito raro de rodapé: é a razão pela qual histórico de convulsão é contraindicação absoluta, pela qual a dose sobe devagar e pela qual o comprimido não pode ser partido. Também explica outras contraindicações que parecem desconexas — suspensão abrupta de álcool ou de benzodiazepínicos e transtornos alimentares como bulimia e anorexia são todas situações que, por si só, já baixam o limiar convulsivo.
Ele pode subir a pressão arterial e a frequência cardíaca — o contrário do que se espera de um remédio para obesidade. A bula determina que o médico meça pressão e frequência antes de iniciar e durante o tratamento, e hipertensão não controlada é contraindicação. O mecanismo é o da própria bupropiona, que atua sobre noradrenalina. Faz do acompanhamento uma exigência, não uma sugestão.
A segurança cardiovascular de longo prazo ficou sem resposta por um episódio de conduta empresarial, não por um resultado ruim. O estudo LIGHT, com 8.909 pacientes, foi desenhado justamente para responder a essa pergunta. Ele foi encerrado antes da hora, em maio de 2015, depois que a fabricante da época divulgou publicamente uma análise interina — algo que quebra o cegamento e inviabiliza o resto do estudo. Quando foi interrompido, tinha acumulado 64% dos eventos previstos. Os dados finais publicados não mostraram excesso de eventos cardiovasculares graves (2,0% no grupo do remédio contra 2,3% no placebo), mas com o estudo truncado esse resultado não estabelece segurança — apenas não acusa alarme. É uma pergunta que continua em aberto, e quem tem doença cardiovascular precisa levá-la ao cardiologista.
A bupropiona é antidepressivo, e traz a advertência de classe sobre ideação suicida. O risco se concentra nos primeiros meses de uso e em adultos jovens. Mudança de humor, agitação ou pensamentos de autoagressão durante o tratamento não são “adaptação ao remédio” — são motivo para procurar o médico imediatamente.
Entre os efeitos adversos comuns, os mais frequentes são náusea, constipação, dor de cabeça, vômito, tontura, insônia, boca seca e diarreia. A náusea costuma ser o motivo mais citado de abandono, e é justamente o que a titulação lenta tenta atenuar.
Quem não pode tomar
A lista de contraindicações da bula é longa, e cada item tem um motivo fisiológico por trás:
- Hipertensão arterial não controlada
- Histórico de convulsão ou tumor no sistema nervoso central
- Doença hepática grave — a naltrexona pode causar lesão hepática
- Insuficiência renal terminal
- Transtorno alimentar atual ou prévio (bulimia, anorexia nervosa)
- Uso de opioides, inclusive metadona e buprenorfina — a naltrexona bloqueia esses receptores e pode precipitar abstinência
- Suspensão abrupta de álcool, benzodiazepínicos ou antiepilépticos
- Uso de antidepressivos da classe IMAO, atual ou nos 14 dias anteriores
- Gravidez e amamentação
Vale ainda um alerta de interação: combinado com outros medicamentos serotoninérgicos, o Contrave pode desencadear síndrome serotoninérgica — quadro potencialmente grave, com alteração do estado mental, febre, taquicardia, rigidez muscular e sintomas gastrointestinais. Se você já usa antidepressivo, essa conversa precisa acontecer antes da primeira dose.
Quanto custa hoje
Como referência de julho de 2026: a caixa com 120 comprimidos, que corresponde a cerca de um mês na dose de manutenção, foi encontrada entre R$ 626 e R$ 699 em levantamento feito em seis farmácias no fim de junho de 2026. Consultas anteriores no mesmo ano registraram variação maior, chegando a passar de R$ 900 em algumas redes — dispersão de preço entre farmácias é a regra neste mercado, não a exceção.
Fica abaixo da faixa das canetas importadas, e acima da semaglutida nacional que chegou em 2026. Se você está lendo isto depois de 2026, trate esses números como histórico e confirme o valor atual na farmácia.
O Contrave é medicamento de controle especial (lista C1 da Portaria 344/98). Isso significa receita em duas vias com retenção de uma delas, e proibição de venda pela internet — o produto pode até aparecer no site da farmácia, mas a entrega depende da apresentação física da receita.
Resumindo
O Contrave é comprimido, não caneta, e não tem parentesco com a família GLP-1: ele combina bupropiona e naltrexona para manter ligado, por mais tempo, o circuito de saciedade do hipotálamo, e para reduzir o peso que a comida tem no sistema de recompensa. Está registrado na Anvisa desde dezembro de 2021 e à venda no Brasil desde maio de 2023, para adultos com IMC a partir de 30, ou de 27 com comorbidade. Nos ensaios de 56 semanas, a perda média ficou em torno de 6% do peso, com metade dos participantes cruzando a marca dos 5% — menos do que as canetas obtêm, por um preço menor e sem agulha. A contrapartida está na lista de contraindicações e nas advertências de convulsão, pressão arterial e humor, que exigem acompanhamento médico do começo ao fim.
Perguntas frequentes
Contrave é caneta emagrecedora?
Não. O Contrave é comprimido de tomar pela boca, não injeção — e a molécula dele não tem nada a ver com a das canetas. As canetas (Ozempic, Wegovy, Mounjaro, Saxenda) são análogos de GLP-1, um hormônio do intestino que avisa o cérebro que você comeu. O Contrave combina duas substâncias antigas e conhecidas, bupropiona e naltrexona, que agem direto em circuitos cerebrais de apetite e recompensa. São classes farmacológicas diferentes, com resultados diferentes nos estudos.
Contrave ainda é vendido no Brasil em 2026?
Sim. O registro na Anvisa é de dezembro de 2021, o produto chegou às farmácias em 18 de maio de 2023 pela Merck, e continua nas prateleiras das grandes redes em julho de 2026. É medicamento de controle especial — a compra exige receita retida e não é vendido pela internet, conforme a Portaria 344/98.
Quanto de peso o Contrave faz perder?
Nos dois maiores ensaios clínicos de 56 semanas, a perda média ficou em torno de 6% do peso corporal, contra pouco mais de 1% no grupo placebo. No estudo COR-II, metade dos participantes (50,5%) perdeu ao menos 5% do peso, contra 17,1% no placebo. É menos do que as canetas GLP-1 obtêm no mesmo período — e vale lembrar que, nos dois estudos, o remédio foi usado junto de dieta e atividade física, não sozinho.
Contrave ou Ozempic: qual funciona mais?
Não existe estudo que tenha comparado os dois diretamente, na mesma população e ao mesmo tempo — então qualquer número que compare os dois é aproximação. Olhando os ensaios separadamente, a perda média com semaglutida (Ozempic/Wegovy) é de duas a três vezes a registrada com bupropiona/naltrexona. Isso não decide nada sozinho: o Contrave é oral, mais barato e pode fazer sentido para quem tem contraindicação ou intolerância à classe GLP-1. Quem decide isso é o médico que avalia o seu caso.
Quem não pode tomar Contrave?
A lista de contraindicações é longa e não é formalidade. Não pode quem tem hipertensão não controlada, histórico de convulsão, tumor no sistema nervoso central, doença hepática grave, insuficiência renal terminal, transtorno alimentar como bulimia ou anorexia, quem usa opioides (inclusive metadona e buprenorfina), quem está em suspensão abrupta de álcool ou benzodiazepínicos, quem usa antidepressivos da classe IMAO, e gestantes ou lactantes. A avaliação médica antes de começar existe justamente para percorrer essa lista.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação, prescrição ou acompanhamento médico. Medicamentos com receita só devem ser usados sob orientação de um profissional de saúde habilitado.